| A Primeira batalha espiritual grandemente
divulgada de Larry Lea em Candlestick Park, em 1990, teve
como um de seus objetivos a expulsão dos “espíritos
territoriais” de San Francisco. Além da crença
de que são dadas responsabilidades a demônios
específicos para que estes oprimam indivíduos,
a doutrina dos “espíritos territoriais”
defende que há também demônios sobre
áreas geográficas, assim como sobre grupos
nacionais, étnicos ou tribais, religiosos e até
de gerações. De acordo com este ponto de
vista é necessário que os cristãos
identifiquem estes espíritos e os expulsem.
A aceitação desta doutrina pode ter um
profundo efeito sobre as estratégias e técnicas
evangelísticas de um ministro. Larry Lea
investiu milhões de dólares nesta crença,
e há muitos outros exemplos que podem ser citados.
Evangélicos brasileiros realizaram um movimento
nacional e apresentaram uma petição ao
presidente Fernando Collor para abolir um feriado de
homenagem nacional a uma estátua religiosa, dizendo
que sua nação está sob maldição
por causa da idolatria institucionalizada ao demônio
por trás do ídolo. Em um livro brasileiro
sobre batalha espiritual, Gilbert Pickering escreveu
a respeito de um encontro pessoal com um demônio
que oprimia uma tribo de índios amazonenses,
de como a sua vitória sobre esse espírito
o levou a evangelizá-los com sucesso (este não
é um episódio incomum entre missionários
com índios). Um irmão, perito em evangelização
de adeptos de um religião não cristã,
apresentou um relato detalhado de como ele crê
que os rituais desta crença se originaram da
experiência ocultista do seu fundador com um poderoso
demônio. A sua opinião é que o demônio
usou estes rituais para agrilhoar seus adeptos em trevas
espirituais. Um homem cristão (que venceu a tentação)
em uma ocasião sentiu um tremendo desejo lascivo
para com uma criancinha, sem razão aparente.
Ele depois descobriu que seu bisavô era um voraz
molestador de crianças, que abusou de suas próprias
netas. Ele renunciou ao pecado de seus ancestrais em
um culto de oração concebido para quebrar
as maldições de geração.
Frank Perretti dramatizou uma cena onde um escorregadio
demônio de luxuria acompanhava uma mulher sedutora
que tentava sem sucesso arruinar a moral de um pastor
dedicado.
Meu primeiro contato com a idéia de espíritos
territoriais ocorreu dez anos antes do encontro com
Larry Lea, quando alguns cristãos bem-intencionados
convocaram uma reunião semanal de oração
para “amarrar” Satanás na área
da Baía de San Francisco e trazer a santidade
à vida pública através da “batalha
espiritual”. Fiquei impressionado com sua preocupação
com o crescimento da influência não cristã
sobre a região. Buscavam estabelecer a piedade
no sistema educacional, na política regional
e na mídia, e destronar o espírito de
homossexualismo de seu principal centro, San Francisco.
Estava feliz por aceitar o convite de participar, mas
quando saí da reunião estava perplexo.
Havia presumido que seria uma reunião para oração
intercessora, mas ao invés a hora foi gasta em
repreender Satanás em todas as regiões
celestiais superiores por se dirigir diretamente a ele
e o “amarrar” verbalmente. O pensamento
me assaltou: “Este grupo passa mais tempo falando
com Satanás que com Deus”. Desde então,
este estilo de batalha espiritual tem proliferado, enquanto
o sistema educacional, a política regional, a
mídia e principalmente o movimento homossexual
têm se afastado mais dos objetivos deste tipo
de reunião de oração.
A batalha não é vossa, mas de Deus
Há realmente um demônio de homossexualismo
sobre San Francisco? Um espírito de abuso sexual
vitima sucessivas gerações de uma linhagem
familiar? Há um demônio especifico de adultério
em mulherengos ou um espírito demoníaco
do álcool nos alcoólatras?
A Bíblia chama a embriaguez e a imoralidade
sexual de “obras da carne”, em Gálatas
5.19-21. Colossenses 3.1-10 nos instrui: “despojai-vos”
das coisas que são parte do corrupto “velho
homem”, que foi crucificado com Cristo. Nunca
somos ensinados a lidar com esses comportamentos exorcizando
o “espírito de luxúria” ou
o “espírito do álcool”.
De fato, Jesus realmente atribuiu o motivo homicida
de seus oponentes à sua associação
com seu ‘pai, o diabo’(Jo 8.44). João
também escreveu sobre ‘Caim, que era do
iníquo e assassinou a seu irmão’(
I Jo 3.12). Paulo escreveu a Timóteo que aqueles
que se opõem aos servos do Senhor estão
nos “laços do diabo, tendo sido feitos
cativos por ele, para cumprirem a sua vontade”
— 2Tm 2.26. Certamente há, então,
influência demoníaca quando alguém
escolhe pecar, e se uma pessoa repetidamente escolhe
pecar ela torna-se escrava do diabo. Mas isso não
é o mesmo que admitir que determinados comportamentos
são obras de certos espíritos, ou que
aqueles comportamentos são eliminados por repreender
tais espíritos. Tornamo-nos escravos do pecado
por escolher pecar, e nos tornamos livres do pecado
quando — pela graça de Deus — escolhermos
obedecer a Deus. Portanto, “o diabo me fez agir
assim” não é desculpa para o pecado.
Que dizer da atuação de forma organizada
sobre regiões, nações, cidades,
grupos étnicos e gerações de famílias?
Em primeiro lugar, devemos reconhecer que há,
de fato, alguma evidência bíblica a favor
de espíritos territoriais. Jesus chamou Satanás
de “o príncipe de mundo” (Jo 12.31),
enquanto Paulo o denominou “o príncipe
da potestade do ar” (Ef 2.2) e “o deus deste
século” (2 Co 4.4). Ele é “o
sedutor de todo o mundo”, juntamente com seus
anjos (Ap 12.9).
Um forte argumento para a crença numa atuação
regional de demônios pode ser encontrado no atraso
de três semanas do mensageiro angelical a Daniel,
que sofreu a oposição do “príncipe
da Pérsia” (Daniel 10.12-13). Isso é
entendido por muitos eruditos como referindo-se a um
príncipe espiritual sobre a nação,
raça e terra persa. As duas referências
clássicas ao domínio satânico sobre
nações terrestres são aquelas
atribuídas a Satã quando Isaías
e Ezequiel estão se dirigindo aos reis de Babilônia
e Tiro (Is 14.12-14; Ez 28.12-16). Um caso interessante
de designação diabólica a uma determinada
localização geográfica é
o da “Legião” (Mc 5.1-20) suplicando
a Jesus para não enviá-los para fora da
região. O Senhor glorificado chamou Pérgamo
de “onde está o trono de Satanás”
(Ap 2.13). Jesus também falou sobre a vida religiosa
de Esmirna, identificando-a com a sinagoga de Satanás
(Ap 2.9-10).
As interpretações destas passagens podem
variar entre cristãos sinceros, mas uma coisa
é certa; a crença em espíritos
territoriais não de deve ser considerada aberrante,
como é, por exemplo, o evangelho da saúde
e da prosperidade. O assunto nunca deve tornar-se um
ponto de divisão entre irmãos em Cristo.
Mas que dizer dos espíritos de geração?
Há cinco referências explicitas no Antigo
Testamento que prometem que Deus visitará os
pecados dos pais nos filhos com punição
(Lv 26.39, Jr 32.18), até à quarta geração
(Ex 20.5; 34.7; Nm 14.18). Em resultado do pecado de
seu pai Cão, os descendentes de Canaã
foram amaldiçoados por Noé, e Jacó
temeu uma maldição de Isaque sobre a sua
linhagem familiar (Gn 9.25; 27.12). Para apoiar a doutrina
dos espíritos de geração é
preciso inferir que a visitação da punição
e o cumprimento da maldição consiste na
presença demoníaca visitada aberrante,
mas de fato requer um desvio de interpretação.
Pode existir alguma evidência no fato de que após
a maldição de Samuel ”um espírito
maligno” ( 1 Sm 18.10) atormentou Saul. Mas este
texto não constitui um argumento conclusivo para
a crença de um demônio designado a uma
geração amaldiçoada.
Uma instância em que os proponentes desta doutrina
se afastam das Escrituras de modo definitivo é
a pratica de tentar expulsar estes espíritos.
A Bíblia realmente mostra Jesus e Paulo repreendendo
verbalmente demônios que possuíam indivíduos
fisicamente. Cada um destes foi libertado e, da mesma
maneira que o gadareno, ficou “em perfeito juízo”,
visto que o materialismo, a imoralidade e a irreverência
são o comportamento comum.
Vosso adversário anda em derredor, como leão
que ruge...
Amarrar verbalmente o inimigo é também
usado para atacar os malfeitores espirituais invisíveis
do mundo das trevas. Sei de um pastor que abre cada
culto dizendo: “Satanás, eu te amarro para
que você não impeça esta reunião
em nome de Jesus”. Um irmão em Cristo com
boas intenções é sutilmente desencaminhado
quando a primeira pessoa a quem se fala num culto de
adoração a Deus é Satanás.
Este “amarrar” está baseado em textos
que jamais foram entendidos como se aplicando a uma
fórmula de repreensão verbal. Apesar de
Jesus realmente ter dito que o homem forte deve ser
amarrado, em Mateus 12.29, isso se dá pela aproximação
do poderoso reino de Deus. Esta metáfora de modo
algum instrui os crentes a mudar o mundo através
de repreensão verbal.
Em Mateus 16.19 e 18.18 Jesus fala que crentes tem
uma autoridade para amarrar que afeta os céus
e a terra. Em 18.19 a disciplina da igreja ( que se
refere aos que professam ser cristãos) é
o sujeito da amarrar e do desatar, e não a batalha
espiritual ( que se refere ao domínio demoníaco).
No versículo 20 isto se realiza pela oração
a Deus, não pelo falar com Satã.
[...] resisti-lhe firmes na fé.
O Senhor realmente afirmou, todavia, que há
um conflito de reinos (Mt 12.22-30). Paulo instruiu
a igreja em Éfeso sobre a batalha espiritual,
contra as maquinações da hierarquia das
trevas celestes composta do “diabo”, “principados”,
dominadores deste mundo tenebroso” e “forças
espirituais do mal” (Ef 6.12). (Talvez espíritos
territoriais estejam incluídos nesta lista).
Para travar esta guerra, Paulo diz aos crentes para
“ficar firmes” contra eles no poder de Deus,
usando Sua armadura. As armas que ele alista para a
batalha são: honestidade, justiça, testemunho,
segurança da salvação, fé
em Deus e domínio das Escrituras. Mas, espere!!!!
Isso não é simplesmente a vida de obediência
cristã? Onde está o encantamento místico
- o contato direto com o sobrenatural? Pareceria que
os cristãos que vivem efetivamente sua fé
atacam a opressão satânica da sociedade
com uma investida violenta, o que a mera repreensão
verbal não consegue.
Após descrever a armadura espiritual do cristão,
Paulo enfatiza a importância da oração.
ë instrutivo examinar a natureza dessa oração.
Ele primeiro insta: “com toda oração
e súplica, orando em todo no Espírito”
(Ef 6.18). A vitória sobre uma hierarquia demoníaca
envolve persistência em falar come Deus. Então
Paulo continua instando a que se ore “por todos
os santos”. Ao orar uns pelos outros, os cristãos
combatem os demônios. Nos próximos dois
versos, ele pede duas que se ore por ele mesmo, como
missionário. A oração dá
poder à pregação do evangelho.
Talvez seja exatamente isso o que ocorreu em Northampton,
Massachusetts, onde um monumento assevera que lá
Jonathan Edwards encontrou o diabo e o venceu. Na Irlanda,
Patrício encontrou as feiticeiras druidas, e
os celtas reconheceram o poder de Deus como superior.
A História relata que após esses dois
eventos multidões voltaram-se para Jesus Cristo.
Estes homens dedicavam tempo considerável a Deus,
mas nunca vi qualquer registro de que eles falavam com
o diabo. Tanto bíblica quanto historicamente,
então, as batalhas espirituais são vencidas
por viver para Deus e falar com Ele na mais diligente
intercessão, ao invés de falar com Satanás. |